sexta-feira, 11 de maio de 2007

Mundo Jovem - Vida de Piloto

Nas fotos de José Suasuna, os Guerreiros da Oasis Racing, Jean Ramos, Douglas Parise e Kurt Airton
Texto: Claudio Yuge - Equipe da Folha de Londrina
Jornal Folha de Londrina public.: 10/05/07

Ouvir o barulho dos motores das motos para eles é um prazer. Sujar as botas, o uniforme e os capacetes não é empecilho algum. Sentir a emoção, a adrenalina de competir, encher o peito de orgulho ao escutar a torcida e subir ao pódio é o que os move a cada corrida. Mas a vida de piloto não é assim tão fácil como parece. É o que dizem Jean Carlo Ramos, Douglas Scartazzini Parise e Kurtt Aírton Rocha, destaques da equipe paranaense de motocross Oasis Racing - Barigui Motos - Suzuki.
''Não é fácil, tem que treinar bastante, tem que estar bem fisicamente'', afirma Kurtt, que, aos 19 anos, já acumula dez anos de experiência no motocross. O cotidiano é puxado: o piloto divide os estudos com o expediente em sua loja de motopeças e costuma passar as tardes se dedicando aos treinos. ''E não é só isso, o mecânico precisa preparar bem a moto, existe um preparador para orientar na academia e também a nutricionista para cuidar da alimentação'', acrescenta.
A rotina puxada acaba muitas vezes atrapalhando o calendários de estudos. Por isso mesmo, Douglas, aos 26 anos, optou por deixar os livros e cadernos de lado para se dedicar somente ao motociclismo. ''Quando eu estudava, não conseguia conciliar os treinos e as corridas, porque a gente viaja bastante também'', diz. Durante sua formação estudantil, o piloto precisava fazer os exames em horários alternativos. ''Meus colegas sempre aprovaram mas os professores não entendiam muito porque às vezes eu tinha que fazer prova em outro horário.''
A vida de um motociclista começa cedo, como a de Jean, que iniciou aos 4 anos. Hoje, aos 17, ele colhe bons resultados. Nas três etapas do Campeonato Brasileiro de Motocross disputadas até o momento, o piloto curitibano só perdeu um ponto e acumula 78, na liderança. Mas, para isso, ele precisa abdicar de outras coisas, como as horas de folga. ''Na infância a coisa não é tão restrita mas depois de um tempo as responsabilidades aumentam e os horários para treino e outras coisas ficam bem mais restritos'', destaca. ''Balada é só no final do ano, entre Natal e Ano Novo.''
Além de sacrificar o tempo livre, os pilotos também precisam lidar com o risco de tombos e até mesmo a possibilidade de morte em acidentes. ''Uma vez quebrei o ombro e tive que operar. Ali eu pensei que não queria mais correr, mas depois eu mudei de idéia'', afirma Kurtt, que já se machucou correndo em seis ocasiões. ''Além disso, quando você se machuca demora um tempo para recuperar o ritmo que vinha treinando e tudo mais, fica bastante tempo parado'', complementa Douglas, com o braço engessado.
A distância com os familiares também é uma constante. ''A saudade é forte mas tem que se acostumar'', frisa Douglas, que vê na ausência dos pais mais um sacrifício para poder vencer na carreira escolhida. ''E tem sempre um cara que você escuta mais, escuta bastante'', lembra. Essas pessoas, ''mentores'', são os mecânicos, o chefe de equipe e outros integrantes, que acabam se tornando uma nova família para os pilotos.
Determinação O chefe da equipe Oasis, Marcelo Silvério, de 36 anos, costumava correr, parou por um tempo e retornou recentemente, na categoria MX3, para maiores de 35 anos. Para ele, o essencial para vencer na vida de piloto é ter vontade. ''O cara precisa ter condição física, técnica e uma boa moto, mas, se não tiver o desejo de ser campeão, não adianta. Tem muito piloto que desiste, por causa das baladas e outros prazeres da vida. Mas o cara que foi campeão aos 38 anos é aquele que sempre teve o desejo de correr, de ser campeão'', enfatiza.
Marcelo lembra que o piloto precisa entender sua carreira um pouco mais cedo que os outros jovens. ''Todas as pessoas envolvidas com motocross, assim como outros esportes, amadurecem muito cedo, porque eles sabem que precisam ser pilotos porque a vida está em risco'', afirma. ''E o investimento é grande'', lembra Douglas. Além disso, o cotidiano é sempre uma aventura. ''Toda corrida é uma aventura, precisamos ver se está tudo certo com a alimentação, com os treinos; lava a moto, revisa a moto, termina o dia, procura hotel... Não temos laços sanguíneos mas convivemos dois, três, cinco dias juntos em viagem e viramos mais que uma família, pois temos que preservar um bom relacionamento'', explica.
E, apesar de todos as dificuldades e da vida controlada que levam, nenhum dos pilotos se arrepende da carreira escolhida. ''A gente começou cedo e todo final de semana é moto, moto, moto. Não tem como voltar atrás'', diz Kurtt. ''Quando você começa, não pára mais'', acrescenta Douglas. ''Tem as restrições, os treinos e a responsabilidade que aumenta mas os resultados compensam'', completa Jean.

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